quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A pior parte de morar fora do Brasil

Postado por Raíssa Maciel às 22:08
Foto: Fernando Adorno
Família reunida num passeio em Houston

Escrevi sobre isso há quase um mês, numa madrugada após um dia de despedidas, mas só agora estou postando. Pensem numa pessoa procrastinadora! Bebê, viagem, casa, trabalho, nada é desculpa pra tanto tempo esperando. Enfim... aí vai.

Mais de 1h da manhã. Ontem foi um dia de despedidas e eu estou aqui pensando no que me parece até agora ser o mais difícil de morar fora do Brasil: a distância da família. Quando estávamos apenas meu marido e eu era difícil, mas agora, com o Francisco, é muito pior.

Passamos dias incríveis com a família do meu marido em Houston, nos Estados Unidos, onde uma das irmãs dele mora com o marido. Quando anunciamos que viríamos, todos se ajeitaram e deram um jeito de vir também. Meus sogros, a avó do Fernando (89 anos e pura disposição) e a irmã dele com os dois filhos vieram de BH. Depois, o primo dele que é americano resolveu iniciar aqui em Houston a viagem de um ano que ele e a esposa estão fazendo pelo país para escolher um novo local para viver (história interessante que você pode acompanhar pelo blog dela, em inglês, clicando aqui). E a mãe desse primo veio da Flórida para passar um fim de semana conosco. E ainda tem a linda família do meu concunhado, peruanos que moram aqui. 

Das dádivas da vida: conviver com a bisavó. Francisco tem três! :)
Sabe corrente de amor? Sabe a bagunça de uma família grande com todo mundo falando ao mesmo tempo (em três línguas) e se entendendo? Sabe quando os assuntos vão começando e sendo interrompidos por outros e assim sucessivamente até que no fim do dia você falou sobre trocentas coisas e não concluiu uma sequer? Sabe acordar de manhã e a casa ir aos poucos se enchendo de vida com as crianças, os cachorros e quatro gerações de amor? Sabe aquelas pequenas discussões, um meio emburrado num canto porque não teve a vontade realizada e depois morrendo de rir no meio dos outros? Sabe não conseguir cumprir UM horário sequer porque 13 pessoas na mesma casa tornam qualquer programação impossível de executar sem falhas? Sabe seu filho pulando de colo em colo, sorrindo e sendo banhado de amor? Sabe família? Então... É disso que eu sinto falta. É o que eu queria que o Francisco tivesse cotidianamente. É provavelmente o maior preço a pagar por viver fora do Brasil. E ontem o pessoal de Belo Horizonte foi embora. :(

Foto: Raíssa Maciel
Rafael (esq.), André e Francisco: foto da despedida dos primos

Ah... Não menospreze a falta que isso pode fazer na sua vida. Não menospreze a dor que você pode sentir vendo seu filho crescer sem a convivência com os avós, principalmente sabendo que isso é parte de uma escolha sua. Meu pai e minha boadrasta ainda não conhecem o Francisco. Tem noção do que é isso pra mim? E pra eles? Minha mãe foi embora de Dublin quando ele estava com 25 dias. Desde então, só fotos, vídeos e Skype. Ele tem quase 8 meses. Minha irmã, meu irmão e minha prima-irmã não conhecem o meu filho. Minha avó nunca tocou o bisneto. Isso dói em mim. E imagino que doa muito neles. 

Foto: Raíssa Maciel
Francisco "conversando" com vovô "virtual" :(
Fico pensando: que homem o Francisco se tornará se não tiver a convivência familiar frequente? Se vovó for uma pessoa "virtual", ali no Skype, e abraço e passeios e chamegos e beijos só no Natal? Que impacto isso pode ter no caráter e no jeito de uma pessoa? Porque uma coisa eu te digo: a pessoa que eu sou e as coisas nas quais acredito têm MUITA influência da minha família. Aí incluídos primos, tios e, claro, mãe, pai, avós... Eu não sei se eu saberia expressar meus sentimentos, se eu gostaria de música e livros, se eu seria solidária ou se eu veria a diversidade com tanta naturalidade quanto vejo caso essas não fossem coisas cotidianas na minha infância. "Ah, mas você e seu marido vão dar todos esses valores e ensinar o que ele precisa aprender". Olha... Eu queria que fosse simples assim. Criar um humano é difícil, gente. Não tem receita. 

Quantos porcento da minha capacidade de sorrir vieram das tardes de domingo na casa da minha avó? E receber as fotos de todo mundo junto enquanto você faz um programa feliz, mas só a três? E dezembro que não chega pra eu morrer de chorar e sorrir com os meus amados e levar orgulhosa meu filho para os braços dos seus? 

Tiago e April, nossos primos americanos

Dica: mantenha os que você ama bem pertinho. Como eu queria ver mais cenas como essas do Francisco brincando com os primos e no colo dos tios, dos avós, das bisas... Está pensando em morar fora? Tem filhos? Ponha na balança o quanto a distância da família será sacrificante. Às vezes você é diferente de mim e não é tão próximo da sua família e acha que isso não fará tanta diferença. Tudo bem. Mas às vezes você é como eu e sentirá muita angústia de ver seu filhote longe dos seus. Se me arrependo da mudança de país? Não. Acho que tomamos a decisão certa para aquele momento, e são inúmeras as vantagens de viver essa experiência. Se voltarei um dia para o Brasil? Não sei. Só sei que a chegada do Francisco me confundiu um pouco. Ao mesmo tempo que acho que a vida na Irlanda será melhor para ele, penso que a distância da família pesa bastante. 

Foto: Raíssa Maciel
Tia Paula e tio Mário, os melhores anfitriões



Licença para um agradecimento: Paula, Mário, é de pessoas como vocês que o mundo precisa. MUITO OBRIGADA!









P.S.: Entendeu pouco dessa coisa de distância da família porque não conhece nossa história? No meu post de apresentação eu expliquei um pouco.

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