segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mãe de UTI

Postado por Letícia Murta às 20:13
Na foto, a primeira vez que ela mamou no peito
Quando Iolanda nasceu, foi conduzida a UTI neo. Ninguém explicava bem o que estava acontecendo. Ela nasceu às 11h40 e só consegui ir até a UTI às 23h. Momentos de angústia. Eu achava que ela havia morrido e ninguém queria me contar. Ou que o quadro era gravíssimo e me ocultavam. 
Eu ali presa na cama, dolorida da cirurgia e sem saber se novamente sairia de braços vazios de uma maternidade. Quando pude vê-la, foi por benevolência da minha obstetra, um anjo que cruzou o meu caminho. Ela permitiu que eu visse com meus próprios olhos que minha bebê estava viva. Por poucos minutos. No dia seguinte eu poderia ficar mais tempo, ela explicou.

Passei a noite em claro. Em minha mente as lembranças da terrível madrugada que passei na maternidade depois da morte de Francisco. Minha cabeça interpretou o fato como uma repetição. Era difícil acreditar que minha filha estava viva e que em breve estaria comigo.

Assim que o dia raiou, fui até a UTI. Sem autorização de médico nem nada. E fui barrada por uma funcionária, contrariando uma legislação federal que permite aos pais livre acesso a bebês de UTI. Briguei. Briguei mesmo. Abri até queixa na ouvidoria do hospital. Mas tive que esperar até as 11h. Quase 24 horas do nascimento de minha filha e eu ali longe. Quanta crueldade.

Nesta altura, amigos queriam nos visitar. Mandavam mensagem, telefonavam. Mas que cabeça eu tinha para receber visitas em um quarto de maternidade sem um bebê? Cadê clima para conversar e dar lembrancinhas. Eu nem mesmo sabia que rosto tinha minha filha. Vi quando nasceu, toda suja e por dois minutos, e na UTI toda cheia de fios e proteção no olhos, por mais cinco minutos. Que pesadelo, meu deus!

Finalmente chegou a hora de ir até a UTI. Fui e esperava entender o que ela tinha e porque estava lá. Fui e esperava pegá- la no colo e amamentar. Fui e esperava ouvir que ela sairia dali em algumas horas. Mas nada disso aconteceu. Apenas fiquei olhando a minha pequena só de fraldinha e muitos fios monitorando tudo. Aparelhos estranhos e um barulho de máquina que nunca mais sairá de minha cabeça. Ainda hoje me lembro do cheiro da uti. E me arrepia.

Somente fui ter informações sobre a saúde de Iolanda por meio da pediatra que hoje a acompanha e que havia sido indicada por uma amiga e eu já tinha escolhido e coincidentemente faz parte da equipe de uti neo desta maternidade. Essa pediatra, outro anjo que hoje tenho em minha vida, me tranquilizou e garantiu que Iolanda sairia dali em até dez dias. Ela teve uma infecção contraída no útero com foco pulmonar. Não se sabe como essa infecção surgiu em uma gravidez tão bem acompanhada. Mas o fato é que se não tivesse feito o parto na altura em que foi feito, com 37 semanas em função da trombofilia, Iolanda poderia não estar aqui. E que se ela não tivesse ido para UTI assim que nasceu, o pior poderia ter acontecido também.

Demorou mais um dia inteiro para que eu pegasse minha filha no colo e ela só foi mamar no terceiro dia de vida. Eu ficava ali ao lado espremendo gota por gota do leite até ter 30ml. Suava de dor, mas tirava, pois sabia que o leite materno é a melhor vacina. Ela tomava na sonda. E quando veio ao peito, incrivelmente sabia bem o que tinha que fazer, embora tenha se cansado rapidamente.

Iolanda ficou dez dias internada. Ao quarto dia eu recebi alta. Tive que sair pela segunda vez de uma maternidade de braço braços vazios. O chão sumiu dos meus pés. O pesadelo se repetiria? Eu tive muito medo. Muito mesmo. Mas naquela semana eu vi pouco a pouco minha bailarina guerreira lutando pela vida e vencendo. Os fios foram sendo retirados e ela ia ficando mais esperta. E quando eu finalmente tive ela só pra mim, em minha casa, eu pude respirar aliviada e agradecer a ela por querer ficar comigo, por me amar, por ser tão forte e por não desistir de ser minha filha. Iolanda é maravilhosa!

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